MEDITAÇÃO SOBRE OS PODERES

 

Deambulando por aí, encontrei este texto de José Jorge Letria que achei oportuno trazê-lo hoje para reflectir um pouco sobre o poder político.

 

MEDITAÇÃO SOBRE OS PODERES

 

«Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.»

 

José Jorge Letria in "Quem com ferro ama"

 

 

publicado por Aquariana às 23:06 | link do post | comentar